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Legalizar drogas sem dar alternativas a jovens é armadilha, diz neurocientista

Paula Leite

SÃO PAULO Judy Grisel, 57, decidiu estudar neurociência porque acreditava que, entendendo como as drogas agem no cérebro, poderia resolver o quebra-cabeça da dependência química –inclusive a da sua própria. Dos 13 aos 23 anos, ela usou várias substâncias que causam adição, do álcool à maconha, cocaína e opioides. Em recuperação há mais de três décadas, a neurocientista da Universidade Bucknell, nos EUA, diz com todas as letras em seu livro “Never Enough” (Nunca é Suficiente, em inglês; ed. Doubleday, 2019) que ainda não conseguiu –nem ela, nem ninguém– solucionar a dependência química.


Apesar disso, estudos feitos por ela e por outros cientistas têm ajudado a entender cada vez melhor os mecanismos pelos quais as drogas atuam no cérebro.

Grisel não está otimista em relação aos efeitos da pandemia no uso de substâncias que causam dependência. Ela acha que podem aumentar o abuso de álcool e de benzodiazepínicos. “Estamos todos precisando mais e mais nos medicar”, diz.



A sra. diz em seu livro que queria resolver o problema da dependência estudando o cérebro, mas que nem a sra. nem ninguém conseguiu isso ainda. Por que esse problema é tão complexo? A adição não é um jogo justo. Temos a ideia de que todos tivemos as mesmas oportunidades, mas há grandes diferenças genéticas e biológicas. O estresse na infância e outras coisas têm um papel em como nosso cérebro reage. Algumas pessoas têm uma chance maior de se tornarem dependentes antes mesmo de experimentarem qualquer coisa.

Alguns têm sorte porque simplesmente não gostam dos efeitos das drogas. Enquanto para outros, uma vez que são expostos a um entorpecente, a parte racional do cérebro simplesmente fica offline e a parte compulsiva toma a dianteira.

A sra. afirma que a recuperação hoje não é mais frequente do que era há 50 anos. Por que a pesquisa e a prática clínica da recuperação de dependentes não avançaram? Nós temos tratamentos com base científica que funcionam. Para pessoas que têm acesso a eles, existe uma chance maior, sim, de que se recuperem. Sabemos como ajudá-las, mas isso custa dinheiro e tempo, e são necessários profissionais treinados. Não temos esses elementos em quantidade suficiente. Enquanto isso, a prevalência do uso de drogas segue crescendo pelo mundo.

Por que adictos levados para tratamento em uma clínica conseguem ficar sóbrios nesse contexto, mas quando expostos a situações em que usavam drogas têm recaídas? O ambiente e o contexto são grandes fatores nas recaídas, porque seu cérebro acha que você vai usar e “se prepara” para isso, criando o efeito contrário e fazendo com que você se sinta péssimo.

Em um lugar novo, sem ninguém que você conhece, é mais fácil, de certa forma, ficar sóbrio. Um exemplo é o que aconteceu com soldados americanos no Vietnã: alguns ficaram dependentes de opioides quando estavam lá, mas muitos, ao voltarem, não usaram mais, em boa parte porque o ambiente era completamente diferente.

O segundo grande fator para recaídas é tomar qualquer outra substância que cause dependência, porque todas ativam os mesmos caminhos no cérebro. É por isso que minha amiga que começou a fumar maconha para deixar de beber eventualmente começou a beber de novo. A substituição de uma droga por outra não funciona, porque são intercambiáveis no cérebro de muitas formas. E o terceiro fator é o es