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Julgar Maradona pelo uso de drogas só reforça o preconceito contra usuários

Atualizado: 10 de dez. de 2020

Foto: Etsuo Hara/Getty Images


Por Luís Fernando Tófoli



QUEM ME CONHECE sabe que sou muito pouco afeito ao futebol. Não tenho time, o que me deixa um pouco à parte do universo – majoritariamente masculino e ainda bem homofóbico – de se zoar e ser zoado pelas afiliações futebolísticas. Mas nesta quinta-feira, 26 de novembro, uma mensagem da mestranda Leila Dumaresq que chegou no grupo de WhatsApp do nosso laboratório de política de drogas na Unicamp me fez querer escrever sobre futebol.

A mensagem da Leila me fez relembrar as peripécias de Maradona que eu testemunhei. Nasci em 1972 e não vi Pelé jogar ao vivo, em seu auge. Mas Maradona, sim, eu vi, pela TV. Testemunhei-o vingando o conflito das Malvinas no jogo contra a Inglaterra em 1986, provando que apesar do clichê, o futebol é mesmo um sucedâneo da guerra. Vi o gol de mão mais famoso da história. E no espírito maroto de ser também um sudaca e latino-americano, vibrei.

Maradona não tinha a majestade olímpica de um Pelé, mas tinha a força que só um deus zombeteiro poderia ter. Irreverente, irritante, iluminado. Dava raiva de ver quando era contra a gente, mas era impossível de não se admirar. Ele abria os caminhos, tal qual um Exu dos gramados. Criava mundos como os demiurgos zueiros das tradições ameríndias.

E como qualquer deus zombeteiro, Maradona era demasiado humano, e teve realmente que lidar com muitas atribulações em sua vida, a maioria causadas por ele mesmo. O mais conhecido é o seu envolvimento com álcool e cocaína. Não vou me alongar a falar sobre isso, pois há farto material na imprensa, esses dias, para atender a esta demanda.

Apesar de toda sua genialidade, muitas pessoas têm escolhido falar de Maradona pela ótica da falta.

Desde que a mensagem da Leila abriu os meus olhos, o que mais me chamou a atenção desde o triste ocorrido é, que, apesar de toda sua genialidade, muitas pessoas têm escolhido falar de Maradona pela ótica da falta. Disserta-se sobre o que Maradona poderia ter alcançado em sua vida se, em última instância… ele não tivesse sido Diego Armando Maradona.

Neste momento, não temos a menor ideia se sua morte teve a ver com seu abuso de drogas, um problema reconhecido por ele mesmo: “Sabe que jogador eu teria sido se não tivesse usado drogas? Um jogador do caralho. Tenho 53 anos, mas é como se tivesse 78”.

Sim, há boa chance de que a vida de Maradona tenha sido encurtada pelos excessos. Isso é triste, e poderia ter sido evitado. Mas isso não muda o fato que se o julgamos pelas hipotéticas limitações causadas por seu envolvimento com substâncias, estaremos medindo o jogador somente pelo tamanho do estigma de “drogado”.

O mundo do futebol é conservador – pelo menos na cara que ele mostra ao público. Não faltaram falas apressadas de comentaristas, técnicos e jogadores brasileiros frisando os maus exemplos de Maradona. Poucos são os que reconheceram com sensibilidade,