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GREA abre serviço especializado para atender problemas relacionados ao uso de hipnóticos.

Escrito por: Dr. André B. Negrão

Afinal, o que há de bom e não tão bom no uso de calmantes?

Há uma crença, reforçada por posturas medicalizantes, de que problemas como insônia e ansiedade devem ser aliviados primordialmente com medicamentos e, diante de momentos de maior estresse, este uso aumenta.


A pandemia do covid impôs um clima de restrição do convívio social, queda da renda e medo crônico para qual parcelas da população tem respondido com índices aumentados de insônia, depressão e ansiedade (morin, 2020). Um estudo feito com mais de 5 mil participantes em 59 países logo no início da pandemia mostrou que mais de 24% tinham diagnóstico de depressão clínica e 20% tinham problemas de insônia. Estes valores medidos durante o início de 2020 são maiores do que outras épocas, ou seja, fora da pandemia. Ato contínuo, aumentou a busca por serviços de psicoterapia à distância, consumo de álcool e, mais recentemente, uso de abordagens não convencionais tais como microdoses de psicodélicos.


Embora não existam estudos específicos, há indícios que houve um aumento significativo do uso de calmantes e hipnóticos durante a pandemia. Foram mais 1,2 milhão de consultas num site de busca por medicamentos . (https://www.ictq.com.br/varejo-farmaceutico/2419-medicamentos-mais-buscados-durante-a-pandemia).


Infelizmente, há uma tradição no Brasil da automedicação e, particularmente para os calmantes, há uma facilidade na obtenção de receitas controladas.

É preciso que se diga claramente, os calmantes têm papel importante no conjunto de ações para minorar o sofrimento das pessoas porém, seu uso é recomendado por dias ou semanas. Infelizmente, tanto da parte do público como da parte dos médicos, existe o hábito de renovar por meses a anos as receitas. Numa iniciativa que procurou minimizar os riscos sanitários envolvidos no contato social, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estendeu a validade das receitas controladas (receitas azuis) para até 6 meses, ou seja, uma receita que anteriormente tinha valor legal para dois meses de prescrição agora foi triplicada. Isto aumenta a disponibilidade dos calmantes e, para um parcela das pessoas, isto aumenta as chances de abuso. (RESOLUÇÃO - RDC Nº 357, DE 24 DE MARÇO DE 2020 em https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2020/medicamentos-controlados-prorrogacao-do-prazo-da-rdc-357-2020)

A necessidade de nos acalmarmos é presente no dia a dia.

Podemos tirar uma pausa para um café ou uma conversa, hoje em dia esta em voga a meditação, fazer atividade física em casa. Quando o estresse esta alto, temos indícios que estes ajustes não funcionam mais. É quando vemos pessoas se queixando de preocupações incessantes, medos de doença, insegurança para fazer as tarefas habituais, dificuldade em iniciar ou sono ou manter uma boa noite de sono. Recorrer a um profissional de saúde em busca de ajuda é uma opção nestas horas. Aí é que podem entrar os calmantes/hipnóticos prescritos. Desde a década de 50, temos uma oferta crescente de remédios para a ansiedade e a insônia. Sempre entraram no mercado como pílulas mágicas, que vão trazer alívio e pouco ou nenhum problema. Bom, não é bem assim. Remédios como os benzodiazepínicos (clonazepam, diazepam, lorazepam) e as chamadas drogas-Z (zolpidem) melhoram rápida e intensamente as queixas de ansiedade e insônia. Porém, há uma problemas. Uma parcela das pessoas que inicia estes medicamentos vai notar que com o tempo eles perdem o efeito e, por conta própria ou mesmo sob orientação médica, estas mesmas pessoas passam a aumentar a dose para obter o efeito desejado. Aqui é que está o problema. Tecnicamente, dá se o nome de tolerância a este aumento da dose para o mesmo efeito.

Quais são os problemas disto?

Além de gastar mais com remédios a tolerância indica que a região onde os medicamentos fazem seu efeito químico, os receptores moleculares em neurônios, modificaram-se quimicamente nestes mesmos neurônios. Aí vem um novo problema, os sintomas de abstinência. Estes neurônios quimicamente modificados, muitas vezes em áreas do cérebro responsáveis pelo controle da ansiedade, passam a funcionar no modo excitado, ou seja, quando passa o efeito