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Ayahuasca reforça elo entre depressão e inflamação


Grupo da UFRN reduz indicador de reação inflamatória e melhora sintomas em pacientes com o tipo resistente do transtorno mental.


Imagem: A professora Nicole Leite Galvão-Coelho no Laboratório de Medidas Hormonais, do Departamento de Fisiologia e Comportamento da UFRN - UFRN / Divulgação



Por Marcelo Leite


SÃO PAULO O pioneirismo da ciência psicodélica brasileira marcou novo tento. Depois de realizar o primeiro teste clínico controlado com essa classe de substâncias (ayahuasca, no caso) contra depressão, pesquisadores do Nordeste mostram que a melhora parece vir de um recuo na reação inflamatória. Ainda não está provada a hipótese que liga esse transtorno mental com a inflamação, resposta típica do sistema imunológico ao ataque de agentes externos, como vírus. Tampouco se sabe o que desencadeia a inflamação discreta em pacientes deprimidos, apenas que eles têm níveis alterados de compostos, como o cortisol, que participam de sua modulação. O novo estudo, publicado dia 10 no periódico especializado Journal of Psychopharmacology (doi.org/10.1177%2F0269881120936486), acrescenta uma peça ao quebra-cabeças da neurobiologia da depressão. À frente está Nicole Leite Galvão-Coelho, do Departamento de Fisiologia e Comportamento da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A bióloga faz atualmente pós-doutorado na Universidade de Western Sydney (Austrália).


“É o primeiro estudo no mundo que aponta em humanos, tanto pacientes quanto pessoas saudáveis, a ação anti-inflamatória de um psicodélico clássico”, afirma Nicole. “Antes disso, só alguns outros in vitro e com modelos animais já haviam demostrado esse potencial.”


Psicodélicos clássicos como ayahuasca (chá utilizado em rituais de religiões como Santo Daime), LSD e psilocibina (presente nos chamados cogumelos mágicos) agem sobre receptores de serotonina no cérebro. Pessoas com depressão têm níveis diminuídos desse neurotransmissor, e remédios antidepressivos atuam para elevá-los.

A fisiologista colaborou com o grupo de Dráulio Araújo e Fernanda Palhano-Fontes, do Instituto do Cérebro e do Hospital Universitário Onofre Lopes, ambos da UFRN, responsáveis pelo estudo randomizado com grupo placebo.

Nicole analisou o sangue de 28 participantes com depressão nesse teste clínico pioneiro (14 tomaram ayahuasca e 14, placebo), além de 45 pessoas sem o transtorno. As amostras foram colhidas antes do tratamento e 48 horas depois. Para medir o grau de inflamação, ela usou uma proteína (conhecida pela abreviação CRP) produzida em maior quantidade no fígado quando ocorre a reação inflamatória do sistema imune.

“A ayahuasca reduziu de maneira significativa, após 48 horas, tanto a inflamação quanto a depressão, simultaneamente”, diz a pesquisadora.

A reação inflamatória, assim como a ação de psicodélicos para atenuá-la, podem ser a chave para avançar no tratamento do tipo resistente de depressão. Ele aflige um terço dos mais de 300 milhões de pessoas com o transtorno no mundo, que não conseguem melhora com os antidepressivos convencionais, baseados na inibição da reciclagem de serotonina pelo sistema nervoso.