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Álcool é associado a problemas, mas segue como nossa 'droga de estimação'

Imagem: Getty Images


É incrível a discrepância entre a forma com que a sociedade brasileira encara o uso de álcool e o de outras drogas, lícitas e ilícitas. Substâncias cujo consumo é proibido, como maconha e cocaína, são tratadas como se fossem o próprio Diabo personificado. Pais e profissionais de saúde e educação pintam, ao tentarem afastar os jovens do consumo, um verdadeiro cenário de terror, com direito à presença de zumbis que se arrastam pelos cantos ao consumirem um baseado. Difícil ver um espaço em que o uso de substâncias ilícitas seja discutido com honestidade, com base em evidências e sem os clichês já conhecidos. Agora peguemos o exemplo de uma droga lícita bastante popular, o cigarro.


Se compararmos as restrições de hoje com o modo como lidávamos com o tabaco na década de 1980, a mudança é enorme. Adotamos políticas de controle sobre o consumo, inserimos avisos (de gosto duvidoso, é verdade) nos maços de cigarro, proibimos o uso em locais fechados, como restaurantes e shoppings, vetamos a propaganda em televisão e outras mídias, fizemos inúmeras campanhas informando os riscos de fumar.


Se pensarmos que há cerca de pouco mais de 20 anos professores fumavam nas salas de aula das universidades e funcionários de bares e restaurantes eram obrigados a trabalhar horas em ambientes enfumaçados e insalubres, a mudança foi gigantesca.


Sem apelarmos para ações violentas e persecutórias como fazemos com drogas ilícitas, optamos por intervenções pontuais, baseadas em evidências, para diminuir o número de fumantes. Como resultado, temos uma das taxas de fumantes mais baixas do mundo, menos de 10% da população (Vigitel 2020), muito inferior aos 35% de 1989, ao de todos os países europeus e aos atuais cerca de 13% dos Estados Unidos.


Já com o álcool, a situação é bem diferente. O consumo está tão arraigado em nossa sociedade que é quase impossível pensar em uma reunião social, por mais despretensiosa que seja, em que não se ofereçam bebidas alcoólicas.


Quando falamos de uso de drogas, o moralismo não costuma ser bom conselheiro. Deixemo-lo de lado, portanto. O que nos interessa em saúde pública, entre outros inúmeros fatores, são os custos (social, econômico, para a saúde etc.) que o uso de determinada substância e sua eventual proibição ou comercialização trazem para a sociedade. Quantas pessoas adoecem, morrem e se envolvem em casos de violência e acidentes ao utilizarem a substância em questão? Quais os problemas do seu consumo abusivo para o usuário e a sociedade? E de sua proibição? Qual o impacto que políticas públicas bem desenhadas podem ter no consumo?.


No caso do álcool, as evidências acumuladas em anos de pesquisas nos mostram que a maneira como lidamos com seu consumo tem trazido consequências graves.

Pesquisa do Detran-RS constatou que 232 dos 624 (um terço, portanto) motoristas mortos em acidentes de trânsito no Rio Grande do Sul em 2019 haviam consumido bebida alcoólica.


De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2019, que entrevistou estudantes do 7º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, 34,6% dos jovens haviam ingerido uma dose de bebida alcoólica com menos de 14 anos, e 47% já tinham passado por ao menos um episódio de embriaguez.

Embora os dados nos alertem para os riscos d