Aumento de álcool e drogas na pandemia da Covid-19 é ameaça à saúde

08 de Julho de 2020

(link da matéria https://eephcfmusp.org.br/portal/online/aumento-alcool-drogas-pandemia-da-covid-19-e-ameaca-a-saude/)


Em 25 de junho, foi celebrado o Dia Internacional de Combate às Drogas e a associação com seu consumo neste momento de pandemia é inevitável. Em todo o mundo, a quarentena forçada pelo novo coronavírus causou reconhecidamente o aumento do consumo de álcool e drogas, o que levou a Organização Mundial da Saúde, ainda em abril, a recomendar que os países limitassem a venda de bebidas. Na África do Sul, foram fechadas as seções dos supermercados e algumas cidades norte-americanas proibiram a venda de álcool pela internet. O Brasil não apresenta restrições, além do fechamento de bares em cidades onde se adotou o isolamento social.

Mas por que as pessoas passam a consumir mais álcool e drogas diante de uma pandemia e de situações tão assustadoras ou limitadoras, como as de catástrofes e guerras?


“Esse é um modelo bastante antigo, no qual as pessoas buscam nas substâncias o que chamamos de coping, uma palavra em inglês que tem associação com a maneira de enfrentarmos os problemas e também com a nossa resiliência. É a forma como reagimos às situações de estresse, ameaça, ansiedade e desconforto emocional. Algumas pessoas respondem a esses sentimentos negativos através do uso de drogas, e é o que a gente tem percebido nessa pandemia; as pessoas acabam usando drogas mais sedativas e anestésicas (álcool e maconha, por exemplo) e usam menos drogas estimulantes, principalmente porque não estão ocorrendo as famosas raves e festas – locais que têm maior índice do uso de êxtase ou ácido. Então, sim, é uma forma de sedação, de anestesia e de reação a esses sintomas negativos ligados a sofrimento, ansiedade, estresse, imprevisibilidade – não sabemos quando vai acabar, não sabemos se vamos nos contaminar ou se as pessoas que gostamos vão pegar o coronavírus também.” Quem explica é o Prof. Dr. André Malbergier, Professor Colaborador Médico do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do GREA (Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas).


Piora na saúde mental e a Covid-19

Em sua rotina com pacientes e dependentes de álcool e drogas, Dr. André identifica que, desde março, quando começou a quarentena especialmente na cidade de São Paulo, tem-se percebido que a saúde mental das pessoas piorou. “Logo que surgiu a pandemia e esse confinamento, as pessoas tinham a sensação de que tudo acabaria em um ou dois meses, e hoje, a princípio, elas conhecem mais sobre o problema. Por um lado, isso pode ajudar, mas por outro, já ficou entendido que não vai haver uma solução mágica que mudará totalmente o panorama – apenas quando chegar a vacina, e se chegar”, explica.

Ele ressalta que as universidades, por exemplo, já informaram que só retomarão as aulas presenciais em 2021 e, assim, as pessoas passam a acreditar que nada mais acontecerá até o fim deste ano – para quem já vem sofrendo, essa sensação de prolongamento do tempo contribui para a piora da saúde mental.


Sem previsão para a normalidade pós-pandemia

A sensação de que tudo seria resolvido rapidamente também pode ter contribuído para o afastamento de muitos pacientes de seus tratamentos ou mesmo de reuniões de apoio, ainda que online. “As pessoas acharam que a pandemia poderia durar um mês, seria um prazo curto, então se houvesse o maior consumo de álcool e drogas, se elas ficassem sem dinheiro, o problema não seria tão grande, pois tudo isso iria passar. Mas à medida que o tempo aumenta e a previsão de voltar à normalidade fica mais longe, elas de alguma forma percebem que esse processo de deixar de buscar ou procurar o tratamento pode não ser saudável”, diz Dr. André.

Para tanto, no GREA, foi desenvolvido um programa chamado PAR (Programa de Acompanhamento Remoto). Este programa oferece aos pacientes do ambulatório um plantão de profissionais disponíveis por chat em horário comercial e também agendamento e realização de consulta remota online. Nos contatos, os pacientes são avaliados sobre o uso de drogas, relacionamentos familiares nessa época de isolamento e rotina, entre outros. Dependendo da gravidade do caso, o indivíduo pode ter estes contatos virtuais intensificados, ou mesmo ser chamado para uma avaliação presencial. Além disso, a equipe também iniciou uma abordagem familiar, através do site, feita por um dos profissionais do GREA.

Limitar o álcool no Brasil seria uma solução? “Acho essa uma questão difícil. Li há poucos dias que o governador do Paraná tinha proibido a venda de álcool a partir das 22h para evitar o consumo, aglomeração de jovens e também tentar diminuir o risco de beber e dirigir. Ou seja, existem algumas ações locais, mas confesso que não sei se o brasileiro está preparado para esse tipo de abordagem. Somos um país pouco legalista e as pessoas tendem a não aceitar muito essas leis, acabam burlando e, se proibir a venda, cria-se o ‘mercado negro’”, afirma Dr. André.


Por outro lado, ele acredita que é preciso esperar para ver se haverá algum resultado positivo da implementação no Paraná. “Poderíamos, sim, tentar criar outras limitações, como número limitado de quantidade de álcool para delivery ou aumentar o preço da bebida, incluir um imposto nela – esta é uma iniciativa mundialmente reconhecida para diminuir o consumo rapidamente. Esse imposto adicional poderia até ser usado em ações ligadas ao combate da Covid-19”, sugere.

Abuso de álcool e drogas é de responsabilidade de todos

Durante o momento de crise, pode acontecer de uma pessoa que não consumia álcool e drogas passar a consumir; porém, os especialistas sabem que os fatores de risco para desenvolvimento de problemas com essas substâncias durante a pandemia têm a ver com os chamados fatores de pré-disposição e vulnerabilidade da pessoa: indivíduos com algum tipo de transtorno mental, como ansiedade e depressão, ao entrarem em contato com a droga, têm mais dificuldade de controlar o consumo. “Quando ele já tem um uso prévio de drogas, antes da pandemia, tem que se cuidar ainda mais”, alerta Dr. André.

O caso de panoramas familiares hostis pode ser fortemente agravado em um momento de confinamento – a convivência forçada desgasta ainda mais os relacionamentos. Nestes casos, o professor vê o risco de uma pessoa que, eventualmente, não tinha o padrão de comportamento de uso de álcool e drogas passar a ter.


E de quem é a responsabilidade? Dr. André a distribui: “É um pouco do governo; ele pode e deve falar com as pessoas e tentar orientar, seja por campanhas de televisão ou internet. O fato do governo já demonstrar que se preocupa com o assunto e de alguma maneira orientar as pessoas desses riscos associados ao uso de álcool e drogas dentro de casa, durante o confinamento, já é um ponto. Como já sugeri, um imposto a mais nesse momento seria bem-vindo”.

Ainda, a sociedade também tem seu papel, “porque ela pode estimular ou não o uso de drogas, mas, em geral, há o estímulo. As pessoas brincam e incentivam, por meio das mídias sociais, o uso de bebida, de preparar drinques, etc.”, diz.

E, finalmente, a família tem sua cota de responsabilidade nesse período de confinamento. “Ela tem um papel extremamente importante de definir os limites: já que na pandemia pode tudo, então o filho pode beber, pode usar drogas, dormir a hora que for e não ter rotina. Ou seja, quando a família autoriza mudanças de comportamentos ou comportamentos que podem trazer prejuízos à saúde, é, sim, uma responsabilidade familiar”, ele alerta.


Um passo antes da reinserção social: objetivo é manter o contato

Dr. André vê a questão de reinserção social –um dos pilares do tratamento – como um dos maiores desafios deste momento, já que o trabalho agora é remoto; então, não se trata de reinserção social no sentido amplo, mas sim em manter o contato com o paciente, manter as pessoas em tratamento e o suporte para aquelas vulneráveis.

“Houve o afastamento social no começo, mas é fato que o retorno não será imediato. Portanto, devemos, sim, retomar o contato com as instituições de tratamento, com os profissionais que o tratam. A essa reinserção social chamamos mais de ‘contato com o profissional de saúde’. E sim, todos os grupos, NA (Narcóticos Anônimos), AA (Alcoólicos Anônimos), estão fazendo um bom trabalho através da internet. Todas as pessoas que quiserem podem entrar nesses grupos online. Além disso, elas podem ampliar os horários das discussões digitais, ou seja, o indivíduo pode participar de mais de um grupo, o que é mais do que quando participava presencialmente. Essa iniciativa pode significar um reforço no atendimento a essas pessoas”, defende.

Finalmente, Dr. André lembra o GREA tem buscado divulgar vídeos em seu site para informar e manter o contato com as pessoas mais vulneráveis e com o público em geral.